DESCE
Completamente nua. "Onde estam minhas roupas?" Sentia que despertara sobre uma superfície fria. Parecia pedra.
(Desce do trono, rainha)
Fria. Não deveria estar deitada a tanto tempo. A cabeça latejava. Todos os músculos tesos se retraiam e queimavam por baixo da pele.
(Desce do seu pedestal)
“Quem está cantando essa música? Marcha de carnaval? Onde estou?” Um gemido mole sai de seus lábios ao perceber que mesmo seus olhos se defrontavam com as ordens de se mover. Parecia que toda ela era feita de gelatina: Frouxa, farta, murcha...
(De que te vale a riqueza sozinha, enquanto é carnaval?)
“Ora, nem é carnaval. Que tipo de brincadeira idiota é essa? Onde está aquela garota loira? Ela me beijou? Ela era tão linda” Os olhos se abriram com dificuldade, estava escuro, mas havia luz, vinda da esquerda. Não era muito, mas era luz.
(Desce do sono, princesa)
As pupilas iam se dilatando e a visão ainda turva se acostumando à escuridão. Com movimentos curtos da cabeça conseguiu divisar o que parecia ser uma sala. Vazia. Acima de sua cabeça à esquerda , uma janela de vidro por onde entrava uma luz. Seria da lua? Do lado direito um grande espelho partido e rachado. “já notou que um espelho partido reflete muito mais luas?” DE QUEM ERA ISSO? Blake? Não interessava agora. As paredes eram de pedra. A luz era da lua mesmo. Cinzenta e mortiça. No espelho.
(deixa o seu cetro rolar)
“Que música é essa meu Deus? Quem está cantando? É mais de um com certeza. O som vem lá de baixo, se ao menos eu chegasse até a janela”. “Aquela garota era linda mesmo. Ficaria mais ainda refletida nesse espelho”.... várias luas.... cinzenta.Enquanto as pernas voltavam a obedecer, os braços trêmulos firmavam os cotovelos no chão gelado. Quase se sentara.
(De que adianta haver tanta beleza Se não se pode tocar?)
Podia se ver no grande espelho, dividida e refletida. “Deve ter sido uma grande obra de arte a um século atrás”, como o espelho na casa de sua bisavó. “Cristal e pó de prata ou narcisismo e ostentação?” Não havia nada mais na sala, nada de portas, nada. A janela. “ Ela tinha uma serpente no corpo” . Espelho. Luz prata. Sangue. “Ela tinha os olhos verdes e a pele tão branca... os lábios me pediam para serem beijados, esfregados, chocados.”
(Hoje você vai ser minha Desce do cartão postal)
Havia sangue em seu corpo! Sangue e gozo...Seus seios, ardiam em vermelho...as pernas ensopadas. O cheiro agora impregnava suas narinas. “Vida e prazer... sangue é vida... ou não?” “Seria a lua?”. “Droga, onde estão minhas roupas?” “ Minha nossa quanto sangue! Eu devo estar muito ferida, meu celular, onde está minha bolsa?”.
(Não é o altar que te faz mais divina)
Conseguiu se ajoelhar. FINALMENTE! Havia mais sangue no chão, a respiração se tornara mais veloz. Lembranças. “O corpo dela tinha algo do paraíso. Sombras de um anjo. Puro. Devasso. Uma indefinição.” Sangue refletido em cristal e lua. Muitos olhos verdes e muitos cristais. Prostada daquele jeito só pensava na música.
(Deus também desce do céu)
Começava a se erguer. Se sentia bêbada mas não estava com medo... de jeito nenhum, antes disso sentia desejo, um desejo inefável. “Ficar em seu corpo feito tatuagem...”
(Desce das suas alturas Desce da nuvem,meu bem)
Mais alguns passos e estaria na janela. As forças iam voltando rapidamente.A música de carnaval despertara uma curiosidade atroz, onde ela já tinha ouvido aquela música? Só mais um passo... já podia ver um jardim escuro havia pessoas lá. Dançando.Quase caído do parapeito se debruçou na janela. Três jovens rapazes nus dançavam em torno de um corpo deitado na grama. O corpo paraíso. Havia sangue, havia lua.
(Por que não deixa de tanta frescura e vem para a rua também)
Um rapaz de longos cabelos ruivos, para de dançar quando percebe alguém na janela. Sorri e abre os braços. Como um abraço fraternal. Uma beleza predadora. “Como um tubarão ou uma áspide, é assim que Rafhael costuma dizer. Como um tubarão”.
ORA MINHA BELLA KATARINA, PENSEI QUE NOSSA CATORIA JAMAIS A ACORDARIA!! HORA DO JANTAR... JUNTE-SE A NÓS... IMAGINE QUE É CARNAVAL...”
deds